Odair José fala das minorias em novo disco

Cantor também revela que já recusou convites para entrar para a política.

Rio - Na Lapa, a poucos metros da sede de O DIA, uma turma de moradores de rua encontra-se diariamente para ouvir música num rádio velho e, de vez em quando, tocar violão. O repertório das violadas já incluiu nomes popularíssimos da música brasileira, como Hyldon, Dalto e Raul Seixas. Dono de um repertório bem popular, e lançando aquele que pode ser considerado seu disco mais roqueiro, ‘Gatos e Ratos’, Odair José até agora não teve uma canção sua executada pela galera.

“Nunca vi uma cena dessas, um morador de rua cantando uma música minha. Seria uma grande felicidade. Eles tocaram Raulzito, Dalto e Hyldon? São artistas de quem me sinto perto”, alegra-se Odair, falando com O DIA por telefone, direto de Cotia (SP), onde mora. Os excluídos da sociedade são temas de músicas de ‘Gatos e Ratos’, como ‘Carne Crua’ e ‘A Cor do Pecado’. Já em ‘Moral Imoral’, Odair trata do preconceito sofrido por gays e lésbicas. E em ‘A Culpa É do Henrique’, fala sobre o hábito do brasileiro de sempre colocar a culpa dos próprios erros em outras pessoas.

“É que nem aquela piada: ‘Joãozinho, quem descobriu o Brasil?”, ‘Não fui eu não, professora, foi ele’”, brinca. “Gostaria muito que esse disco funcionasse como um despertador, porque a população brasileira está realmente adormecida. O que eu mais vejo na TV é político dizendo que a culpa foi do outro governo. Não votei na Dilma (Rousseff), mas culpá-la por coisas que vieram de outros governos foi um absurdo".

ODAIR POLÍTICO?

Falando na ex-presidente impichada, a música-titulo do disco novo foi interpretada por muitos como uma homenagem ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por causa de versos como “eu vejo no seu olhar desilusão/escuto na sua história decepção(...)/ eu sinto teu sentimento tão machucado/teu presente trazendo o futuro de volta ao passado”. É uma homenagem, Odair?

“Tenho respeito pelo Lula, pelo que ele representou para o povo brasileiro. Algumas pessoas fizeram essa interpretação e posso ter pensado nele, sim. Mas eu jamais faria um disco partidário”, completa Odair, que em 45 anos de carreira, diz ter visto muita injustiça no Brasil. “Rodei o país inteiro, conheço o Brasil como a palma da minha mão. A necessidade do povo brasileiro é mais preocupante do que as pessoas imaginam. Meu público, predominantemente, é masculino e humilde. Muitas vezes é um cara sem leitura, mas não é um cara bobo. Já conversei com pedreiro que era meu fã, que cantava músicas minhas”.

Justamente pela proximidade com fãs humildes, Odair diz já ter sido convidado para ingressar na política. “Quando o Leonel Brizola foi candidato a governador do Rio, me convidaram para sair como deputado. Agradeci, me coloquei à disposição mas não é uma coisa que eu pretenda fazer. Muita gente da música foi para a política e não conseguiu fazer nada. Talvez se eu fosse jovem...”

BREGA? NÃO!

Conhecido por baladas como ‘Uma Vida Só (Pare de Tomar a Pílula)’ e ‘Eu Vou Tirar Você Desse Lugar’, Odair radicalizou: o disco novo não tem músicas românticas e tem muitas guitarras, em canções como ‘Livre’, com mais de seis minutos, ‘Gatos e Ratos’ e ‘Moral Imoral’. “Me falaram que eu poderia ter pegado mais leve. Eu estou com 68 anos, vou é fazer o que eu quiser. O brasileiro adora baladão, mas isso eu já fiz”, conta o músico, considerado um dos reis da música cafona, ou “brega”, pela simplicidade de suas músicas. Apesar de ser uma gavetinha na qual ele é colocado, não o chame de “brega”: Odair detesta.

“Não gosto que as pessoas associem meu nome a isso. Acho uma lástima”, reclama. Recentemente Odair conheceu Rodrigo José, que tem sido considerado o novo rei do brega (e já foi capa de O DIA) e deseja sorte a ele. “O conheci em um show que fiz no mês de outubro em Cordeirópolis (SP) e ele me disse que a mãe tinha alguns discos meus e que ele aprendeu a gostar do repertório. O Rodrigo tem condições de ser um ídolo popular sem precisar ser caricato. É só conseguir boas músicas, trabalhar com disciplina que a coisa vai acontecer!”, alegra-se.

Texto: Ricardo Schott  Fonte: https://goo.gl/sZqCSx

 

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