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ODAIR JOSÉ - UM DIVISOR DE ÁGUAS

Quem já passou dos 30 anos se lembra. Ele surgiu no cenário musical brasileiro na rica década de 70 como um furacão. Odair José, o cantor da pílula; o terror da empregadas, o Bob Dylan da Central do Brasil. Estes foram algumas das expressões criadas pelos jornalistas da época para tentar definir o então novo fenômeno. Contudo, nenhum dos epítetos criados pela imprensa – e foram tantos que alguns até se perderam no tempo -, consegue traduzir o que realmente significa Odair José. A melhor tradução é do próprio Odair: “um cantor, compositor e músico, mas, acima de tudo, um artista totalmente identificado com a cultura popular brasileira”.

De uma maneira ou outra, Odair José pode ser traduzido também como um dos maiores vendedores de discos do País nas últimas três décadas e meia. Compositor de melodias simples e letras diretas, com seu trabalho ele trouxe o cotidiano do povo para dentro da música brasileira, para os discos, as estações de rádio e televisão, contribuindo de maneira decisiva para uma significativa mudança comportamental na sociedade brasileira como um todo.

A maior característica de seu trabalho é retratar os conflitos e o amor em sua face mais real, ou seja, da paixão ao sexo, até então tabu, principalmente entre os compositores de maior apelo popular. Sobretudo aquele amor e sexo proibidos, dos prostíbulos, dos amantes escondidos em um quarto qualquer num dos cantos da cidade. O resultado disso foi uma enorme empatia com a massa e milhões de discos vendidos numa época em que as vendas ainda estavam restritas ao universo dos milhares.
 
Seu estilo objetivo, franco e a sua linguagem simples e direta, de fácil compreensão e assimilação criou um novo caminho na música brasileira e acabou influenciando uma geração de novos artistas que ainda hoje buscam inspiração em seu trabalho.

Começo – Um verdadeiro divisor de águas na música de massa brasileira, Odair José nasceu no Estado de Goiás, mais precisamente na cidade de Morrinhos, localizada a aproximadamente 125 quilômetros ao sul de Goiânia, capital do Estado. Ainda cedo se transferiu para a cidade do Rio de Janeiro em busca da realização de um sonho acalentado desde a infância: obter e ocupar um espaço no cenário artístico nacional através da sua música. A tarefa não era fácil, mas ele se entregou a ela com a certeza daqueles que sabem o que querem.

No Rio de Janeiro, travou conhecimento com Rossini Pinto, um dos mais sensíveis e bem sucedidos compositores das décadas de 60 e 70. Rossini desempenhava também a atividade de produtor e viu em Odair o potencial de um grande artista, levando-o para a gravadora CBS, hoje Sony Music. Era o início dos anos 70 e o primeiro trabalho do novo cantor para a gravadora multinacional foi a canção “Minhas Coisas,” incluída com destaque no lendário disco “As 14 Mais”, um dos principais produtos da companhia naquela época.
 
Pronto, estava lançada a semente. Daí para o sucesso foi uma questão de tempo. Em 1972, Odair gravou a música “Eu vou tirar você deste lugar” e com ela aconteceu o grande estouro. Essa foi a canção mais tocada e o disco mais vendido no País naquele ano, se colocando até hoje como um clássico no repertório nacional. Começava uma verdadeira profusão de sucessos. No mesmo ano emplacou as músicas “Esta noite você vai ter que minha”; “Cristo quem é você?” e “Pense pelo menos em nossos filhos”, todas do disco “Assim sou eu”, lançado pela Polydor. Estava consolidado, Odair José deixava de ser uma promessa para se tornar realidade, um “must”, entre os artistas populares da época.

Consolidação – Mas tudo estava apenas começando. No ano seguinte, 1973, o LP “Odair José” se torna o disco mais executado e vendido em todo o País. Deste álbum, nada menos que oito das 12 músicas ocuparam o primeiro lugar nas paradas nacionais. No mesmo ano, Odair arranca para o exterior, tendo seus discos lançados em toda a América Latina, nos Estados Unidos e em alguns países da Europa. Os novos mercados foram logo adicionados a então já repleta agenda de shows do artista, apresentações em que Odair José entoava canções como “Pare de tomar a pílula”; “Deixa essa vergonha de lado”; “Eu, você e a praça”; “Cadê você?”; “A noite mais linda do mundo”; “Na minha opinião”; e “Que saudade de você”, entre outras.
 
Sempre coerente com a sua condição de contestador dos tabus hipócritas da burguesia, em 1978 Odair partiu para um novo e controvertido rumo. Compôs e gravou “O filho de José e Maria”, um trabalho até hoje impar neste nicho musical, Trata-se de uma ópera popular composta de 24 canções. O projeto o levou para os palcos dos teatros num espetáculo de grande produção, com o qual percorreu todo o País durante um ano. Isso o apresentou a um segmento diferente de público, mas, em contrapartida, o afastou das camadas mais populares, até então a parcela quase que majoritária de seu público.
 
Apesar de toda a controvérsia gerada em torno do projeto, Odair garante que não se arrepende de ter idealizado, composto, gravado e apresentado ao público a sua ópera popular. ”Se fazia necessário naquele momento pelo estágio evolutivo que meu trabalho apresentava”, explica ele. Passada a tormenta veio a bonança e, já em 1979, Odair volta a compor coisas mais ligadas ao gosto do chamado “povão” e retorna aos primeiros lugares das paradas com a música “Até parece um sonho”, incluída na trilha sonora da novela Cabocla, da Rede Globo de Televisão. Na seqüência de sua carreira, ele se mantém em evidência nas listas de sucessos com as canções “Horóscopo” e “Planta sem raiz”, outros dois êxitos significantes do cantor goiano.
 
Seguindo sua temática característica de ser uma espécie de repórter musical do cotidiano brasileiro, Odair José vem atravessando as décadas sempre analisando o que rola no dia-a-dia das pessoas. Foi assim em 1992, quando gravou o disco “Sem saída” e mais uma vez “arrebentou” nas paradas de sucessos. O álbum foi um dos mais vendidos do ano garças ao sucesso de execução nas rádios de músicas como “Sem saída”, que deu título ao disco, “Ela me pôs de castigo” e “Gotas de amor”. Normalmente gravando um disco por ano desde o começo de sua carreira, ele abriu uma exceção no biênio 1996-1997 e se dedicou a fazer uma análise de todo o seu trabalho até então.
 
Novo milênio – A chegada do novo milênio marcou o descobrimento de Odair José por novas gerações que não conheciam seu trabalho. Inúmeros outros artistas passaram a regravar canções de seu repertório. Em 2006, por exemplo, Odair José foi tema de um tributo que reuniu os principais grupos da nova música pop-rock brasileira. Essas bandas fizeram releituras de vários dos sucessos do artista, resultando no álbum “Vou tirar você deste lugar”, lançado pelo Allegro Discos, com a presença de nomes como Paulo Miklos, Zeca Baleiro, Pato Fu, Mombojó e Mundo Livre S/A, entre outros.

Também em 2006, Odair voltou a obter êxito nacional com um álbum de músicas inéditas. Do disco, chamado “Só pode ser amor o que sinto”, se destacou, entre outras, a canção “Bebo e Choro”, incluída nas trilhas sonoras do filme “Trair e coçar é só começar” e da telenovela “Bicho do Mato”, da Rede Record de Televisão.

Após um hiato de seis anos, o cantor voltou com “Praça Tiradentes” (2012),produzido por Zeca Baleiro, que declarou ter a missão de “fazer o Brasil reconhecer Odair José”. O ineditismo de Praça Tiradentes está na assinatura de algumas canções. Pela primeira vez, o cantor grava músicas de outros compositores – no caso, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown ("Vou Sair do Interior"), Zeca Baleiro ("Como Um Filme", mais uma sobre as empregadas domésticas) e Chico César ("Você Tem Me Ensinado"). Zeca e o titã Paulo Miklos ainda dividem o microfone com Odair em outras faixas.

Com 45 anos de carreira, Odair lança DIA 16, em 2015. Dia 16, a faixa de abertura que dá nome ao disco, completa com outras 11 canções este trabalho simples, despojado e com espírito rock, mas feito com grande esmero técnico e musical.

Realizado com a atmosfera de uma jovial banda de garagem, o disco foi concebido de forma coletiva e executado e gravado da forma mais analógica possível, a partir da nova safra de canções de Odair. "É com certeza um dos meus trabalhos mais pop, com muitas canções de apelo popular e radiofônico. Mesmo que as rádios não o toquem, é um disco radiofônico", comenta o compositor goiano, que tem servido como fonte de inspiração para uma nova geração de músicos e despertado o interesse do público jovem.

Renovado e com a agenda repleta de shows, Odair José se diverte cantando seus maiores sucessos e mostrando também seu lado mais Rock and Roll esquecido no álbum clássico “O Filho de José e Maria”.